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O Gigante, o Parnasiano e 118 games.

In tennis, Wimbledon on 24/06/2010 at 01:32

Photo: Google Images

Pensei em várias maneiras de se começar esse texto, mas nenhuma se destacou e reinou inconteste, passando com louvor pelo difícil crivo que é a minha licença criativa para criar algo de um mínimo valor. Pois bem, começo esse texto por duas vezes. As duas após essa breve introdução.

118. Um número respeitável. 118, relacionado ao esporte, lembra muito uma partida de basquete: grandes equipes em jogos inspirados superam essa marca com certa facilidade na temporada regular. Fazendo uma rápida consulta no Game Log do Boston Celtics, vejo que um dia antes do Halloween de 2009, dia 30 de Outubro, contra o Chicago Bulls, jogando em casa, a equipe marcou 118 pontos contra pouco menos da metade – noventa – dos taurinos de Illinóis. Uma bandeja de Rajon Rondo afastou o time desse recorde, em novembro, contra os dinossauros de Toronto. Houve também ocasiões em que o time superou essa marca – cento e vinte e dois contra Minnesota – e também que perdeu por uma marca parecida – 116 contra os sóis de Arizona. Mas enfim, digo isso apenas para reforçar minha afirmação inicial, de que cento e dezoito pontos não é algo de espetacular em uma partida de basquete.

A menos que estejamos falando sobre a Euroliga. Conhecido por seu basquete truculento e pouco… digamos… fantástico, deslumbrante, mágico – como acontece com a NBA – acho aqui, em mais uma rápida consulta pelo anuário do torneio europeu, um jogo pela primeira repescagem, entre um time belga e um time francês, cujos nomes, creio eu, sejam de exígua importância. Permito-me, então, esquecê-los. (Se algum fã se sentir ofendido, pode reclamar comigo ou xingar muito no meu twitter, não ligo. Ganharei apenas mais um replies de belgas e seus chocolates e franceses e suas baguetes, enfurecidos, gritando impropérios). O referido jogo terminou, no primeiro de dois confrontos, em uma vitória belga por 55-53. Menos, portanto, do que os cento e dezoito games jogados por John Isner e Nicolas Mahut, entre ontem e hoje, na esquecida quadra dezoito de Wimbledon.

Dia vinte e dois de junho, exatamente à uma hora e vinte e oito minutos da tarde, disse, em meu Twitter oficial e verdadeiro – procurem saber se não estão seguindo fakes, crianças; eles vêm se proliferando sob minha alcunha em uma quantidade absurda desde que comecei a escrever para esse blog – que tinha medo de John Isner jogando em Wimbledon. E, de fato, tinha. Longe de considerar o simpático gigante de Greensborough, Carolina do Norte, um bicho-papão. Com uma carreira cabível a jogadores de basquete e futebol americano recém-saídos da universidade, John Isner vem para o seu segundo ano de tênis em alto nível. E ele já tem vinte e cinco. É, por exemplo, mais velho do que Rafael Nadal. Tudo bem, perdoável, Nadal é um mutante que com a idade do dono do blog já tinha vencido Roland Garros por setecentas e quarenta e quatro vezes – isso porque são campeonatos anuais – sem perder um set em trinta e sete ponto cinco por cento desses anos. Mas Isner não é nenhum prodígio. Com dois metros e tanto – não é o maior do circuito por que Ivo Karlovic, croata, gigante, sacador, tem dois centímetros a mais que o nosso glorioso fã de Jake Delhomme e dos Carolina Panthers – John Isner faz o que se espera para seu tamanho: saca. E saca forte. Devolver suas pedradas é uma tarefa hercúlea, digo eu, que nunca enfrentei um tenista com a mínima predisposição a se tornar um profissional e top-20. Assim como é devolver um saque de Ivo Karlovic. Ou como era retornar as bolas de Goran Ivanisevic, Todd Martin e tantos outros que poderia ficar horas enumerando-os. Pois bem, John Isner, filho das universidades americanas, tem vinte e cinco anos, um título na carreira e duas finais perdidas para Sam Querrey. Prefere as quadras rápidas, o cimento americano que adorna os torneios de Atlanta, Indianápolis, Flushing Meadows, San Jose e uma porrada de outros também. Mas não foge do saibro: foi vice-campeão no fraco torneio de Djokovichia, digo, Belgrado, e avançou, de forma até surpreendente, em Roland Garros, quando foi exterminado pelo bom checoslovaco Tomas Berdych.

Os jogos de John Isner não são lavadas. Ele deu trabalho para Nadal – mais novo do que ele – em Indian Wells – nos Estados Unidos. Sim, propositalmente recordo os dois que citei mais cedo – mas não tão cedo, esse texto nem é tão grande, acho. Ele costuma disputar muitos tie-breaks. E quando eu digo que são muitos, é porque são muitos. Chega a ser chato. Todos os jogos dele – senão todos, porque se eu disser todos vão achar um jogo dele no Challenger de Sarasota no qual ele aplicou um Double-baggle, como dizem na terra de Uncle Sam, em algum tenista boliviano que hoje vende peixe em La Paz. Sim, esse blog tem muitos fãs assim, minuciosos e dedicados em me contradizer, pude conhecê-los bem quando jogaram na minha cara que Mijatovic era Montenegrino, não Sérvio, como eu gostaria – tem, pelo menos, um 7/6. Não é crime ter seu jogo baseado no saque. Você tem mais de dois metros, tem uma bazuca acoplada ao ombro direito. Use-a, a ATP não irá te banir do torneio, tampouco o STJD vai te tirar vinte e cinco mandos de campo e três pontos. Por isso mesmo, era de se esperar que na grama – Inser, como eu digito errado às vezes, perdão se sair assim em algum ponto do texto além desse, não jogou nenhum dos quatro preparatórios; a quadra dezoito seria a primeira em que ele jogaria nesse ano – seu jogo encaixasse. Wimbledon era o paraíso de dois dos meus tenistas mais caros: Ivanisevic, que perdeu três ou quatro vezes antes de – against all odds, como deve ter dito alguma manchete inspiradora em seus anglicismos – finalmente triunfar em 2001 e Andy Roddick, que também bateu na trave três vezes e, pior, na mesma trave, sendo que ano passado a bola pingou na linha e eu e mais uma meia dúzia de pessoas pode jurar que ela passou por completo, mas ainda espera seu momento Ivanisevic, que dificilmente acontecerá, porque duvido que o filho de Omaha criado no Texas prolongará sua carreira até que a oportunidade de ser cento e tanto do mundo e receber um convite apareça. E a grama, reconhecidamente, favorece as poucas trocas de bola, um melhor e mais potente e preciso saque, e jogos sem quebras definitivas. Analisando o histórico do torneio de Queen’s, também disputado em terras Reais, desde mil novecentos e noventa e quatro, quando do último alinhamento entre os anéis de Saturno, há uma tendência natural a finais decididas no desempate, o que só comprova o que eu disse anteriormente, e não me faz passar por louco, mentiroso e energúmeno. O que só sou um pouco.

Portanto, eu disse tudo isso para explicar que não tinha medo de John Isner prevalecer em relação aos outros cento e vinte e sete tenistas da chave e levar para casa uma bandeja prateada, na qual certamente ele não serviria café da manhã para sua mãe ou colocaria um vaso com camélias. E sim porque suas partidas normalmente são demoradas e difíceis de assistir. Principalmente antes do décimo terceiro game do set. Digo isso sem remorso, pois o grandalhão é um dos meus tenistas favoritos, e o dono desse digníssimo site pode comprovar isso. Não sei se vai, mas que ele poderia, poderia.

Só que no All England Club – e agora não me valho de estrangeirismos, o clube chama-se assim e assim que eu vou chamá-lo, queiram ou não – assim como em outros dois dos três Slams, não tem essa de décimo terceiro game no derradeiro set. Não, é até a morte, alguém deve ter brincado. Mas é assim, na terra da Rainha, do Parlamento, da direção do lado direito, do Liverpool, da Libra, de duas guerras mundiais e uma Copa do Mundo, e dos tenistas que jogam sempre de branco. E se, mesmo com esses preciosismos Wimbledon continua sendo, na minha opinião, o melhor torneio de pelo menos três universos e realidades paralelas, não há o que contestar. E até a morte (ou escurecer, nas outras quadras desguarnecidas de um teto retrátil chique e uma iluminação que faz a quadra principal – sem nome, mais um preciosismo da Senhora Elizabeth – lembrar uma abóboda gótica na moderna Londres) segue, ainda, o jogo entre John Isner e Nicolas Mahut.

Não há muito o que falar sobre o francês. Ele perdeu uma ou duas finais em Queen’s. Uma foi para o Roddick, eu sei. A outra também deve ter sido. Ou para o Hewitt. Os dois se revezaram ganhando títulos lá ano sim, outro também. Não à toa, os dois juntos têm quase uma década de dominância naquela grama lá, que se não é O Gramado, é respeitável, também, embora a ATP não ache, uma pachorra das graúdas, sem dúvida. Nunca teve o prazer de erguer um troféuzinho, talvez de Challenger. Não escanseei sua carreira como fiz com o poema de Francisca Júlia. Não tenho por quê. Ele é só o Nicolas Mahut, não é um poeta parnasiano com orientações simbolistas, tampouco vai me passar de semestre – feito que ainda não sei se eu alcancei, e perdão pela digressão e por contar sobre a minha vida insossa nesse espaço tão concorrido. Hão de me perdoar. Ele é só o Nicolas Mahut, um bom duplista. E que, como simplista, enfrentaria John Isner pela primeira rodada de Wimbledon, no último jogo do dia na quadra dezoito, logo após uma inexpressiva italiana e sua tampouco relevante rival britânica se degladiarem, como duas guerreiras romanas em uma Arena. Ok, nem tanto.

A Quadra 18 não tem a glória da Quadra Principal. Não lembra, nem de longe, a capacidade da Arthur Ashe, em Nova York. Acho que é essa a maior quadra de tênis do mundo, em capacidade. Posso estar equivocado, acontece, muito. Não tem o charme da Philippe Chatrier. E também não tem o calor nem é tão azul quanto a Rod Laver Arena. Mas está lá no complexo de Wimbledon, e merece ser respeitada também. Antes de ontem, quem por lá passasse deveria apenas olhar para a indicação, em uma bela placa timbrada com o logotipo do torneio (nunca estive por lá, mas tenho certeza de que é assim) ‘Court 18’ e então seguir seu caminho. Ou, a quem interessasse os jogos de Sam Querrey e um soviético-ucraniano e da vice-campeã da França, a charmosa e estilosa Samantha Stosur contra sua futura algoz, uma báltica, Kaia Kanepi (N. do A.: Seria Kaia uma versão feminina para Caio?), entrar e acomodar-se, assistindo a duas, três horas de um bom tênis sobre a grama. Não sei se há câmeras de televisão naquela quadra. Não sei se os melhores árbitros são escalados para lá. Não tenho informações de que ela é tratada com o mesmo carinho que as Quadras 1 e Central, ou se é apenas um número em meio aos outros tantos em uma planilha sobre os gastos do clube. Sei que, definitivamente, a Quadra Dezoito do complexo de Wimbledon vai entrar para a história. Isso mesmo sem ser palco de uma final, mesmo sem servir de cenário para o último jogo de um grande tenista, ou uma grande tragédia – porque essas coisas também unem as pessoas e faz com que lugares se tornem marcos. Veja o WTC, por exemplo, naquele ato de calhordice de Bin Laden ou quem tenha feito aquilo. A Quadra Dezoito, e acho mais respeitoso grafar dessa forma agora, com duas capitais, e 18 por extenso, assim, Dezoito, entrará para os anais do tênis moderno, arcaico, passado, presente e futuro pelas mãos de John Isner e Nicolas Mahut – o simpático gigante da Carolina do Norte e o bom duplista que não é parnasiano tampouco tem influencias simbolistas.

Não sei que horas eram, exatamente. Não sei também se algo de extraordinário aconteceu quando John Isner, com seu boné branco, sua roupa igualmente imaculada adornada com o símbolo de seus patrocinadores norte-americanos – e não vou fazer merchan, porque não gosto de seus produtos; fossem os concorrentes alemães, colocaria o nome, em capitais e negrito – carregando sua bolsa, com um kit sobrevivência completo: umas cinco raquetes, um par ou dois de camisetas – brancas, como manda o torneio – e um tênis. Sim, acho que ele carrega consigo um tênis. Fernando Verdasco, esse ano, em Indian Wells precisou trocar o seu e tinha um Adidas, idêntico, bonitoso e pimpão, à disposição. Então para qualquer eventualidade, certamente Isner deve ter um tênis reserva. E, levando em conta o tamanho daquela bolsa, poderia muito bem também ter lá escova de dente, xampu e, porque não, um kit-higiene completo. Se Isner soubesse qual seria seu destino, certamente colocaria também um travesseiro e um lanchinho. Tampouco tenho conhecimento de alguma mudança no cosmos quando Nicolas Mahut entrou vestindo sua roupa branca com um jacaré bordado. O mesmo jacaré que, safado!, também pulou na roupa de Andy Roddick. E curtiu, porque o nosso amigo crocodiliano está lá pelos últimos cinco anos. Mas o post não é sobre o Roddick ou sua grife, enfim.

Concreto é dizer que a partida se desenrolou normalmente no primeiro dia. Sim, dias. Depois desse jogo, o conceito de sets se tornou subjetivo, e essa Epopéia tem de ser medida em dias, não games, horas, tampouco sets. Pois o primeiro set saiu sem tie-break, e Isner, fazendo valer seu encabeçamento como 23 (mesmo sendo dezenove no ranking de entradas), venceu sobre o adversário teoricamente mais fraco, que agora ocupa uma modesta posição de numero cento e quarenta e nove. Pois pode ser orgulhar, é um dos cento e cinqüenta melhores tenistas do mundo. Parabéns a Nick Mahut, O Parnasiano. Posso chamá-lo assim? Acho que posso. Se algum familiar ou fã se incomodar, junte-se aos belgas e franceses e xinguem muito no meu Twitter. Pois bem, após pouco mais de meia-hora de duelo – 32 minutos – para meia dúzia de gatos pingados, suponho, Isner fecha o primeiro em 6/4. Puxa vida, pensei. Contrariando a lógica, não tivemos um desempate. Que siga assim. Ledo engano, o meu. No segundo set, uma quebra colocou O Parnasiano na frente, e ele não decepcionou: empatou o jogo em One set-all, 6-3, três minutos mais rápido, 29 minutos. Tínhamos então uma hora e um minuto de jogo, estou certo? Boa média para dois sets. Veio o terceiro. E, perdão se disser merda de boi (Bullshit.), mas Isner quebrou Mahut. E Mahut quebrou Isner. E lá foram eles para o fatídico décimo terceiro game, empatadinhos, empatadinhos, 6 a 6. Esse set foi um pouco mais longo. Quarenta e poucos minutos, acho. E deu Nicolas “Le Parnasien” Mahut, francês como Baudelaire, o Led Zeppelin da poesia, como eu costumo dizer. Não vou traçar um paralelo de tênis com a literatura universitária a esse ponto do texto, fiquem tranqüilos. Quarto set. E Isner volta a ser Isner. E O Parnasiano volta a ser Nicolas Mahut. E temos, pela primeira vez, um jogo de grama, sobre O Gramado, tão venerado. Sobre O Gramado e sob o céu de Londres, que começa a escurecer, afinal, é assim que funciona. E no quarto set, temos novamente um desempate, porque nem Isner nem Mahut quiseram fechar o jogo em seis ou em sete-cinco. Então vamos quebrar esse empate aí, diz as novas regras do tênis. Porque é o quarto set e pode. No quinto não, deve estar escrito, com enormes letras vermelhas, em algum lugar, um livro velho em uma redoma de cristal na sede da ATP. E Isner faz a fria noite de Londres aquecer, porque ele vence. Faz 7-6, indica o placar normal de uma quadra normal, com um público normal, um árbitro de cadeira normal e dois tenistas particulares, um gigante e um francês que, destoando da gente de Monfils e Noah, obteve seus melhores resultados na grama. E assim, impedindo que Mahut fechasse em 4, Isner determinava que a história do tênis moderno fosse reescrita no dia seguinte. Que recordes seriam dilacerados como nacos de grama nos quais sua bola – quase uma granada – cai na quadra do pobre e indefeso adversário. Mas não hoje. Porque por hoje tínhamos uma partida de quase três horas, calculo eu, cá com meus botões e duas janelas de MSN abertas (e Muse tocando). E assim um representante da organização do torneio deve ter chamado Mohammed Lahyani, perdão de equívocos na grafia do digníssimo senhor, um grande árbitro, John Isner e Nicolas Mahut, e dito: Mas, meus rapazes, não podemos mais continuar com isso aqui. Cai a noite, não é mais possível ver a bola, meus meninos. Temos que comer, dormir. A vida segue e hoje é só terça-feira. Vamos dar isso aqui por encerrado hoje, meninos, e vão aproveitar a noite inglesa que vocês são jovens. Amanhã terminamos, que tal? E os dois, em uníssono, devem ter concordado. Uma toalha na nuca, as pernas doendo, a raquete na bolsa e cada um para o seu vestiário, cansados. Voltaram para o hotel, jantaram, dormiram, assistiram um filiminho, não sei, a vida extra-quadra deles não me importa. Não deveria importar a você, que lê isso aqui. É chato isso, invadir a privacidade dos moços.

E então veio a quarta-feira, dia vinte e três de junho, véspera do aniversário de Lionel Messi, Jeff Beck, Cicinho e tantos outros, que não será devidamente comemorado por mim, mesmo que eu tenha, no meu calendário, circulado em caneta hidrocor vermelha o dia 24, como “aniversário do Messi”. Comemoro os anos de Messi, sou assim. Ele é foda, e merece. E então estava aberto o segundo dia. Dizem que para se escrever um livro, são necessários três tópicos: introdução, ápice e desenlace. Estou simplificando, mas é bem assim que um escritor deve pensar. Pois bem, o segundo estágio é o ápice. E a vida imita a arte. Mas tênis é arte. Se é sobre O Gramado, mesmo que fosse da Quadra Dezoito, onde no primeiro jogo do dia Greta Arn derrotou Alicia Molik, é arte mais ainda. Portanto, a arte imita a arte. E começa o terceiro set. Não sei o que os boleiros estavam pensando, não sei o que Lahyani estava pensando, não sei o que o público estava pensando. Talvez estivessem mais preocupados com os jogos do Roddick, na quadra central, ou do Federer, na quadra 1, ou do Djokovic, Clijsters, Henin, em quadras mais importantes, do que um jogo deslocado: jogariam a primeira rodada enquanto todos os outros fariam seus segundos jogos no torneio. E então Isner confirmou. E Mahut confirmou. E Isner confirmou. E assim foram, até o 6 a 5. Era o game mais importante, até então. Porque já diz o velho livro que O Quinto Set é até a morte, em Wimbledon. Talvez não com essas palavras, provavelmente não com essas palavras, certamente que não. Mas transmito a vocês com essas palavras, para evitar brigas por direitos autorais. Pois bem. Mahut confirmou. E então Isner confirmou mais uma vez, e Mahut o seguiu. E assim foram. John Isner já escrevia seu nome na história como um dos maiores números de aces em uma única partida. Sei que no 13 a 12 ele já igualava os cinqüenta aces de Roger Federer na final do ano passado. Aliás, até então, cinqüenta aces era o maior numero de saques não retornados disparados por um tenista que tinha saído vencedor. Fora isso, Ivo Karlovic, croata, gigante e pivô do Hadjuk Split nas horas vagas, que detinha as três primeiras marcas, não soubera aproveitar seu saque: perdera com 51, 55 e 78 aces. Não sei para quem foi com cinqüenta e um, mas com cinqüenta e cinco foi contra Hewitt, ano passado, na França, e setenta e oito contra Stepanek, pela Davis. Os dois no saibro. Mas Isner marcou mais um ace, e mais outro. E Mahut marcou mais um ace, e mais outro, e confirmou seu saque. E seguiram. Os jogos começando e terminando, e os dois sacando e devolvendo – mais sacando do que devolvendo – e marcando aces. John Isner passou dos cinqüenta e um. Passou dos cinqüenta e cinco e passou dos setenta e oito em algum ponto do jogo, quando os games já haviam passado absurdamente de um limite razoável: 31-30, algo assim. E Mahut superou os quarenta e seis aces compartilhados por uns cinco tenistas e também escrevia seu nome no top-10 de mais aces em uma partida. Primeiro recorde quebrado, primeira partida na qual os dois tenistas marcavam mais de quarenta e seis aces. Primeiro feito histórico para os três – o gigante, o Parnasiano e a Quadra Dezoito. E o game prosseguiu. No 20-19, saque de Mahut, Isner pôde igualar o 21-19 de Roddick contra El-Aynaoui, no Australian Open de dois mil e três, ou dois mil e quatro. Mas Mahut confirmou. E assim seguiu. Até que os dois bateram o recorde de games em uma partida de Wimbledon. E bateram o recorde de partida mais longa em Wimbledon. E de tie-break mais longo de Wimbledon. E logo Arnaud Clemant e Fabrice Santoro, personagens do até então jogo mais longo da Era Aberta, em Roland Garros, 2004, teriam seus nomes execrados dos livros de história (boa será a era em que tênis será lecionado nas escolas) e do Guinness. Porque 6 horas e 34 era pouco para Isner e Mahut. Eles queriam mais. Queriam tirar a atenção de Federer, Djokovic e Davydenko – que agradece, pois sua derrota passará incólume aos jornalistas, que só tem olhos agora para a Quadra Dezoito, a patinha feia do complexo de Wimbledon. E logo Isner superou Karlovic no numero de aces. E logo os dois tinham mais de duzentos winners – contando aces. E logo Mahut superou os cinqüenta aces de Federer. Superou os cinqüenta um, os cinqüenta e cinco e os setenta e oito de Karlovic. E Isner chegou aos trezentos winners. A partida superou as seis horas de Clement e Santoro – este, O Mago, se aposentou esse ano. Aquele, ainda joga, com seu estilo único – e o quinto set chegava às cinco horas de disputa. Uma puta duma defasagem: 32, 29, 47, 65 e 250 minutos. E o melhor estava por vir, porque Isner, que já não é lá um excelente retornador, agora tomado pelo cansaço, ficava pior ainda. E Mahut não tinha como devolver os saques de Isner a ponto de estar em condições de quebrar o adversário. Mas Isner teve dois match points, só que Mahut salvou com dois aces. E logo eles haviam se tornado primeiro e segundo na lista de mais aces em uma partida. E a partida, que tinha virado vôlei, tomava ares de basquete. 41-40, 42-41. Isner fugindo, Mahut igualando o placar. E a pequena Quadra Dezoito havia se expandido. Todo mundo queria agora um pedaço daquele momento histórico. Com a educação inerente aos ingleses, eles se acomodavam, se aglomeravam. Muitos na Quadra Dezoito, como ela nunca deve ter visto. Outros tantos atrás de monitores de computador, e uns ainda na Henman Hill. E então, pela primeira vez na história de uma partida de tênis, os jogadores venceram a máquina. No 50-50, a partida que agora já atraia os olhares do mundo, passava das 7 horas fez o Scoreboard da IBM pifar: o quinto set marcava 1-0 para o americano, como se uma página tivesse sido virada. Comecem outra vez, ele parecia insinuar. E o placar eletrônico também pedia água. Escureceu, e apenas as duas placas amarelas com os nomes dos duelistas permaneciam. De resto, apenas espaços negros. Mas cinqüenta era pouco, sete horas era pouco. E Isner confirmou, 51-50. Mahut voltou a igualar. E assim seguiram por mais oito games: aces, winners, saques confirmados. E os dois correndo – Mahut, inclusive, caindo aqui e ali, ao melhor estilo Boris Becker, deitando sobre O Gramado Sagrado da Quadra Dezoito e tirando um cochilo, tenho certeza. Substituíram as bolas e os pegadores. Pobres crianças, vão ficar traumatizadas e nunca mais vão querer saber de entrar em uma quadra de tênis, nem que seja no Paraíso. A noite caia, e Bob Bryan, no Twitter, afirmava que tínhamos mais quarenta minutos de luz. Não chegou a tanto, creio eu, mas no 59-59, com exatas dez horas de partida – um recorde; só o quinto set foi mais longo do que a partida entre Clement e Santoro… shame on you, guys – Mahut chamou o cara da organização de canto e disse algo como, posso imaginar: Mas, meu senhor, não consigo mais ver a bola. Por mim jogaria mais quatro horas, até a morte, como diz o regulamento. Mas não consigo enxergar a bolinha, seja complacente. E então o senhor deve ter virado para o juiz e dito: Mohammed, terminamos por aqui, hoje? E Mohammed deve ter dito: John, terminamos por aqui hoje? E John Isner deve ter dito, esbaforido: Se é para o bem de todos e da nação, terminamos por aqui hoje. E, esfriando o apelo popular do Twitter, de tenistas como Dani Hantuchova e Victoria Azarenka, além de Svetlana Kuznetsova, o senhor encarregado da organização do torneio decretou que a partida estava terminada por hoje.

Um dia inteiro. E nenhum vencedor. É uma pena que o esporte não possibilite que haja um empate entre os dois guerreiros. São dois vencedores, exemplos de perseverança. Poderiam muito bem ter desistido, desamarrado seus burrinhos, montado em seus lombos com os bolsos um pouco mais cheios e partidos. Mas ficaram. E disputaram, por 118 games, uma vaga na segunda fase de Wimbledon. Muito provavelmente a partida será rapidamente decidida amanhã. Os músculos vão esfriar, e quem tiver o melhor condicionamento físico leva em dois ou três games. Por isso esse post é feito hoje. Para que a impressão que fique seja a da plena igualdade. Dez horas, cento e dezoito games de desempate depois e nenhum vencedor. Por volta de cento e vinte aces, senão mais, quinhentos winners, novecentos pontos disputados. Um exemplo de competição elevado à máxima potência. Não esperem muita coisa de Isner e Mahut, no entanto. Dificilmente vencerão o jovem Thiemo de Bakker, que fechou seu jogo em 16-14 no quinto, porque no quinto não tem desempate, é até a morte, e a morte de Santiago Giraldo foi ao tentar manter o saque no 14-15. É isso, acontece. O que não acontece sempre – e nunca vai se repetir – é um 59-59. Vinte e três de junho de dois mil e dez, Quadra Dezoito de Wimbledon. Senhores, vocês viram a história ser escrita.

Por Pedro Liguori

ST Team!😉

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