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E ponto final.

In tennis on 14/09/2010 at 22:46

Nadal celebrates... again.

O céu é azul. É azul e ponto final. Em um dos meus livros de lingüística, estudei essa frase, e como ela é pragmaticamente perfeita. Ou algo do gênero. O céu é azul, e é mesmo. Ponto, ninguém contesta.

Após 551 partidas em nível ATP, sendo que dessas em 453 saiu vitorioso, 41 títulos, sendo 18 Masters e 8 Grand Slams, Rafael Nadal já era apontado como um dos grandes da história, pentacampeão em Roland Garros, bicampeão em Wimbledon, campeão na Austrália, dominador absoluto das quadras de saibro.

Mas faltava alguma coisa.

7 partidas, exatamente 14 dias depois, essa coisa veio.

Não, não são as 460 vitórias. Não é o fato de Nadal ter perdido menos de 100 vezes, mesmo estando no circuito desde 2001 – quando era um mero adolescente, 15 anos, idade em que a maioria dos mortais só pensa em uma coisa. Não é o jogo consistente, a vontade, a habilidade, a falta de derrotas estúpidas.

O que faltava ao cartel de Rafael Nadal, nascido em Manacor, região litorânea da Espanha, sobrinho de um ex-futebolista do Barcelona e da Fúria, era exatamente o novo Major, que calhou de ser o quadragésimo segundo título.

Ontem, segunda-feira, 13 de setembro de 2010, Rafael Nadal entrou em quadra e mais uma vez saiu vitorioso, onde nunca tinha saído em toda sua carreira: na quadra Arthur Ashe, em uma segunda-feira. Nadal bateu Djokovic. No percurso, deixou pelo caminho Gabshvilli, Istomin, Simon, os compatriotas Feliciano Lopez e Fernando Verdasco, o russo Mikhail Youzhny.

No complexo Billie Jean King, em Flushing Meadows, borough de Queens, Nova York, Estados Unidos, está lá gravado, na lista de campeões cujo inicio data do já longínquo ano de 1881, no espaço referente ao ano de 2010, o nome de Rafael Nadal. Mais do que isso, os livros de história… melhor, nem eles. A internet, que leva em tempo real as informações para os quatro cantos do mundo, informou ao planeta que um novo capítulo na história do tênis havia sido escrita: aos 24 anos, 3 meses e alguns dias, Nadal completou seu Career Slam. Mais do que isso, esse titulo no cimento americano, somado ao ouro olímpico de Pequim 2008 e as três conquistas da Copa Davis, em 2004, 2008 e 2009, elevam Rafael Nadal a um novo patamar.

Quis o destino que a História fosse irônica. Em 2009, Roger Federer completou seu Career Grand Slam justamente em Roland Garros, Major do saibro, amplamente dominado do Nadal. Federer se aproveitou da saída precoce do espanhol para faturar o único Slam que ele não tinha vencido. Um ano e três meses depois – ou 5 Slams, como preferir – Rafael Nadal é coroado rei na terra de Federer. Nova York, onde os sonhos são feitos, diz a música de Jay-Z, fez mais um ontem. E um pesadelo para os fãs do suíço.

São 21 confrontos entre os dois. Nadal prevaleceu em 14. Mas tinha a desculpa de que a maioria deles foi no saibro… Em Grand Slams, foram oito confrontos, apenas um antes da final, em 2005, quando Nadal derrotou o número 1 do mundo, o penúltimo passo antes de seu primeiro título, contra o argentino Mariano Puerta. Os próximos sete em Majors foram em finais. E mais uma vez Rafa, como é chamado por seus fãs, leva vantagem. Em Roland Garros, foram três finais, entre 2006 e 2008, e Nadal nunca perdeu – inclusive impôs a Federer o último pneu até então, no terceiro set da decisão de 2008. Na Grama Sagrada do All England Club, mais três finais, e aí as únicas vitórias de Federer. Em 2006 e 2007, deu Federer. Em 2008, não. Dizem que foi o melhor jogo da história do tênis. Eu não sei… Por fim, o Australian Open de 2009 viu a última final dos dois até o presente momento. Foram cinco sets, uma maratona. Mas Nadal venceu. Venceu, e chegou a títulos de Slam nos três pisos primeiro do que Federer.

Nadal tem a única coisa que falta a Federer: uma medalha de ouro de simples (Federer foi campeão nas duplas ao lado de Stanislas Wawrinka, em 2008). E tem a vantagem de ser quase cinco anos mais novo do que o suíço de Basel. Federer completou seu Slam aos vinte e sete. Nadal, aos vinte e quatro.

“Como?”, talvez seja uma pergunta adequada. Força mental, certamente. O físico não pode ser esquecido. A evolução, peça-chave. Porque Nadal não sabia jogar na grama, não sabia jogar nas quadras rápidas americanas. Não sabia, agora sabe. E mete medo. E quem pode ganhar dele?

Não sei. Mas sei de uma coisa. Já considero o espanhol o melhor de todos os tempos, e é apenas uma questão de tempo até que ele supere Federer, tanto em títulos (está 20 troféus atrás) quanto em Slams (16 a 9). E do mesmo jeito que digo que ele é o melhor de todos os tempos, afirmo que o tênis só tem a perder com mais um monopólio. É quase como a dominância de Schumacher na Formula 1, e a própria de Federer de 2004 para cá. Agradará aos fãs mais aficionados, e aos que adoram o espanhol, ou o alemão, ou o suíço. Mas para aquele que ocasionalmente acompanha o esporte, a chatisse de resultados previsíveis resultara no tênis preterido para outras atividades.

Além do mais, há mais uma tendência de surgirem quase campeões. Como Roddick em Wimbledon. Como Andy Murray, como Michael Chang na época de Sampras, como Ivanisevic em Wimbledon. De 2005 para cá, ou seja, nos últimos 20 Grand Slams, apenas 3 não foram vencidos pela dupla Federer-Nadal: os Abertos da Austrália de 2005 e 2008 (vencidos por Safin e Djokovic, respectivamente) e o US Open do ano passado, no qual Del Potro triunfou.

Nadal não liga para isso, e nem deveria mesmo. Seu caminho natural é ir atrás dos 4 títulos que lhe faltam: os Masters de Miami, Cincinnati e Paris, além da ATP Finals, a antiga Masters Cup. Vencidos esses 4, ele terá escrito seu nome na lista de campeões de todos os principais torneios do circuito. Quase como zerar um jogo 100%.

Mas aos 24 anos, imagino quais sejam as novas metas desse enviado de seres extraterrestres baseados na Península Ibérica. Igualar Fred Perry, em 1934, que conquistou o Grand Slam em seu sentido mais romântico, digamos, vencendo os quatro torneios no mesmo ano. Depois, se equiparar a Rod Laver, que o fez em dois anos, 1962 e 1969. Por fim, quando não sobrarem mais feitos entre os homens, Rafael passará a olhar com cobiça para um feito até então inimaginável, o de Steffi Agassi, née Graf*, em 1988, quando venceu os abertos da Austrália, França, Inglaterra e Estados Unidos, também triunfando nos jogos olímpicos de Seul. Idade ele tem. Capacidade também. Adversários? O próximo ciclo olímpico será daqui a 2 anos, no mitológico ano de 2012. Talvez essa seja a grande profecia Maia.

Mas o fato é que, ganhando ou não os quatro principais torneios no mesmo ano, Rafael Nadal já é o melhor tenista de todos os tempos.

E ponto final.

Pedro Liguori, colaborador do SportsTour desde que Nadal tinha só 7 Slams, não gosta do espanhol (por mais incrível que pareça) e prevê um futuro negro para o esporte mais nobre de todos.

*- ‘Née’: termo de origem francesa adotado também no inglês para designar o sobrenome de solteira de uma mulher.

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