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Meu Pequeno Monstrinho

In futebol on 21/09/2010 at 23:28

Luís Alvaro de Oliveira assumiu o Santos prometendo uma gestão diferente da do incansável ex-presidente, Marcelo Teixeira, e trazendo consigo a esperança de que a cartolagem brasileira se renovasse, evitando os mesmos erros e clichês que permeiam os quatro cantos da Terra Brazilis. Hoje, 21 de setembro de 2010, pouco depois das 10 da noite, essa esperança desceu pelo ralo assim como descerão os restos mortais do papel que um dia foi o contrato de Dorival Júnior com o Santos.

Isso tudo porque, em mais uma queda de braço comandante versus comandado, o General Manager acabou por tomar as dores do moleque de dezoito anos, que vale muito mais do que 80% da população brasileira vai ganhar durante toda a vida. A corda arrebentou do lado mais fraco, menos imprescindível para o sucesso do time segundo o presidente e seu conselho administrativo. E, em mais um ato de desrespeito para com profissionais dedicados e competentes – que venceram dois dos três torneios disputados esse ano – sobrou para Dorival Júnior, um bom técnico sem um time. E agora o Santos, um bom time, não tem um técnico. Mas tem Neymar. E os milhões dele. E é justamente esse o tema desse post. Não apenas Neymar em si, não apenas ele, mas uma visão geral sobre o assunto.

160 mil reais. Em termos norte-americanos, isso seria mais ou menos 1,2 milhão de dólares por ano, por cinco anos. Uma puta grana. Para um garoto que desde criança lidou com as dificuldades de uma família pobre (simplesmente detesto o termo “humilde”), é o suficiente para que o deslumbramento ocorra, e os reflexos são imediatos. O primeiro carro de Neymar, aos 18 anos, é um SUV Volvo; o atacante santista só se veste com roupas de grife – ganha a maioria da Nike, sua patrocinadora pessoal -, usa correntes de ouro e o bonés que o credenciam a estrelar o melhor dos vídeos de Gansgsta rap de 50 Cent e sua trupe. E aí que mora o problema.

‘Money is bliss’, diz alguém. É bom ganhar dinheiro, o sentimento de independência, liberdade, poder. Fatos que qualquer um que trabalha pode corroborar. Mas também é preciso cuidado. Não à toa, o excesso é um dos pecados capitais (embora não com esse nome e abordado de diversas maneiras). E esses jovens rapazes que saem da lama para o sucesso como jovens adultos – ou até mesmo antes disso – pecam pelo excesso.

Não raro – pelo contrário, é até mesmo assustadoramente comum – o envolvimento de atletas de alto nível em polêmicas ganham as manchetes. Adriano e Vagner Love desfilavam com traficantes nos bem (ou mal) afamados morros cariocas; Ronaldo é um famoso baladeiro; Casagrande enfrentou recentemente problemas com narcóticos; Maradona talvez seja o máximo expoente do futebol, enquanto que na NFL, liga de futebol americano, podemos citar Plaxico Burress, e com ele traçamos um paralelo para Gilbert Arenas, jogador da NBA. Ambos enfrentaram problemas criados por armas de fogo: Burress está preso até agora após, em uma boate, acertar um tiro na própria perna com uma arma ilegal. Já Arenas está suspenso da NBA por sacar um revólver no vestiário.

Não digo, de forma alguma, que a solução seja cortar bruscamente os salários de atletas de alto nível. Normalmente, são todos dedicados. Normalmente, o esporte é sua vida. Normalmente, são habilidosos, astros de suas equipes. Lotam estádios, vendem produtos – esportivos ou não – e geram um lucro inimaginável. Portanto, são merecedores de um retorno o justo. O problema é como esse dinheiro chega aos atletas. Muito fácil, com um afago na cabeça de patrocinadores, dirigentes, colegas, amigos (verdadeiros ou não) e fãs.

E aí vem a autoconfiança. E dá autoconfiança para a arrogância e soberba, o caminho é curto e muitas vezes imperceptível. “Eu sou bom”. Sim, provavelmente você é mesmo, como é o caso de Neymar e tantos outros por aí. “Posso tudo, faço tudo”. Não, não deveria. Mas estou para ver um dirigente que peitará sua principal estrela. Ao custo de quê? Perder o grande diamante africano, fonte de renda e resultados por uma mera questão de vaidade? Abdicando desse esportista, outro time certamente pagará o dobro e um reino para ele. Foi assim com Robinho, no Santos e no Real Madrid – e até hoje ele paga o preço.

Não, o jeito é ceder. E alimentar o ego dos super-atletas, exímios dentro de campo, péssimos fora dele. E enquanto isso a bolha se forma. Caem técnicos, oras, eles cairiam mais cedo ou mais tarde, eita profissão inglória. Os salários sobem a níveis exorbitantes, deixa, os patrocinadores bancam metade. E ele não quer mais treinar. Não importa, o talento é natural, não precisa exercitar. Baladas? Deixa. A galinha fornece ovos de ouro. Ovos ovais, quase parecidos com bolas, de neve, que rolam, se juntam e crescem.

Até que seu menino-prodígio cresceu, não amadureceu e agora se acha acima da linha do bem e do mal, fora de campo. Mas o presidente não mais manda nele, ele tem vida própria, ídolo local, nacional, faz a alegria de milhões de fãs. Mas a vida é dura fora do âmbito esportivo, e a lei é para todos.

E quando você menos espera, ele está levando um revólver para a balada. E só te resta receber os parabéns. Você criou bem seu pequeno monstrinho.

Pedro Liguori, colaborador do SportsTour, acha Neymar um imbecil.

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