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Clijsters, Franchitti e o tal do talento

In all sports on 04/10/2010 at 15:47

Franchitti com seu terceiro troféu da Indy.

Poderia aqui seguir por dois caminhos diferentes que tanto falariam sobre minha pessoa mas, no entanto, acabaria por desvirtuar o assunto do post e do blog, causando reações catastróficas na Sportstour Inc.

Por isso, a abordagem mais pessoal cede espaço a uma análise esportiva que venho maturando há um ano e tanto e que acaba por culminar com esse texto preparado com muito amor, from me to you, diriam uns rapazes de Liverpool.

Em segunda instância – e já aqui inicio o post pra valer – essa lauda ou duas (como diz um amigo) serve também para concluir a temporada de 2010 da Indy. Temporada tal que acabou no sábado, 2 de outubro, com Dario Franchitti selando uma grande virada na tabela ao conquistar o título pela terceira vez, defendendo com sucesso seu triunfo de 2009. O Escocês Voador contou com o abandono de Will Power, que a 5 corridas do final possuía enormes 59 pontos de ‘gordurinha’.

Aproximadamente um mês e pouco antes do Gran Finale de Homestead, um pouco mais ao norte da Costa Leste, em Nova York, Kim Clijsters terminava o US Open de 2010 do mesmo jeito que o do ano anterior: com o troféu. Mesmo enfrentando dificuldades e não jogando um tênis de encher os olhos e matar de deleite os fãs do esporte mais nobre de todos os tempos, Clijsters defendeu pela primeira vez os 2000 pontos que lhe eram de direito no ranking e conquistou o terceiro Major de sua gloriosa carreira.

Ao traçar o paralelo entre os dois, fica a pergunta: o que há de comum entre os dois atletas, nascidos em pontos distintos da Europa, com uma década de diferença, e cujos esportes não são relacionados, tampouco suas carreiras? Eu mesmo respondo: além do enorme sucesso atingido do outro lado do Atlântico, os dois são grandes – se não os maiores – expoentes do mais puro e refinado talento – embora no tênis, esporte em que os resultados estão mais diretamente ligados à capacidade do atleta, isso esteja mais evidente.

Notem bem que eu não ignoro o dom natural que nomes como Peyton Manning, Lionel Messi e Roger Federer possuem. Apenas exponho Clijsters e Franchitti sob um outro ponto de vista. Para mim, os dois são diferenciados porque, ao contrário dos três exemplos citados acima (monstros que se mantém em um alto nível tempo o suficiente para serem imortalizados nos anais do esporte) seguiram uma carreira contínua. Mesmo perdendo jogos e não vencendo todos os torneios, como é de se esperar de qualquer ser humano normal, Manning, Messi e Federer mantiveram-se 100% focados e em atividade.

Já o escocês e a belga resolveram seguir o mesmo e surpreendente caminho após suas maiores glórias, que apenas reforçaram seus nomes no hall de grandes nomes em suas respectivas categorias. Primeiro, foi Clijsters, após vencer seu primeiro Grand Slam, em 2005, ao bater Mary Pierce com facilidade na final. Dois anos depois, Dario Franchitti venceu o campeonato da Indy em um épico final contra Scott Dixon. Em comum, o fato de não terem voltado para defender seus títulos.

Clijsters pendurou as raquetes, e trocou as quadras do mundo afora por uma família. Aos 22 anos, largou o tênis, se casou, engravidou, se tornou mãe, e por quatro anos ao invés de nomes como Serena e Venus Williams, Kim se ocupou e se preocupou com Jada, sua filha com um jogador de basquete americano. Já Franchitti decidiu trocar os monopostos da Indy para se aventurar com os chassis tubulares da Nascar.

Quis o destino que voltassem no mesmo ano e, subconscientemente, inspirassem esse post – que espero eu do fundo meu coração renda boas visitas. Foi ao final de 2008 que Dario, já um veterano, admitisse o fracasso na Sprint Cup e anunciasse sua volta para a Indy em efetivo no ano seguinte, pela equipe de Chip Ganassi. Clijsters esperou mais alguns meses, mas ainda no início de 2009 convocou uma coletiva de imprensa e disse: “Volto para a temporada americana”. Talvez não com essas palavras, mas o espírito foi esse. E assim se fez.

Voltaram. E mostraram que tempo nenhum de descanso pode apagar o que é mais inerente ao grande esportista: o talento. Kim Clijsters, como uma convidada sem ranking voltou a Flushing Meadows logo em seu terceiro torneio. Ia avançando pelas fases preliminares, despertando atenção a cada vitória. Venceu Venus Williams, querida do público em jogo de placar surpreendente, e chegou às semifinais. Jogou contra Serena Williams, líder do ranking, atual campeã. E, em um dos jogos mais memoráveis da história do Aberto dos Estados Unidos, venceu. Chegou à final e passar por Caroline Wozniacki foi mera formalidade. A ex-líder do ranking mundial estava de volta, e em grande estilo!

O mesmo pode se dizer de Franchitti, que em 2009 venceu cinco corridas e acabou com o título da mesma maneira que em 2007: poupando combustível na corrida final.

Mas talvez o ponto alto do talento dos dois tenha sido 2010. Pela primeira vez em suas gloriosas carreiras, teriam de defender os títulos, entrar com a pressão de carregar o número 1 (teoricamente) e de serem os atletas a serem batidos. E foi justamente nessa hora que mais se sobressaíram. Clijsters não encantou, mas venceu quando tinha de vencer. Chegou a final contra Zvonareva e, em um esporte individual como o tênis, todos os méritos são do jogador e com extrema facilidade venceu aquela que vinha sendo a grande surpresa do torneio. Na Indy, como em qualquer outra categoria automobilística, fica a dúvida de até que ponto o homem é superior a máquina. Mas, cá entre nós, ao reverter uma vantagem de 59 pontos, se mantendo sempre junto de Will Power nos mistos e pilotando de forma fria e calculista a mais de 350 quilometros nos ovais, não fica provado que o piloto ainda faz muita diferença?

Mais uma vez, antes de finalizar, não pretendo menosprezar nomes como Sebastian Loeb, sete vezes campeão do WRC, ou Michael Schumacher, com 5 títulos em seqüencia na F1 e muito menos esquecer da dominância de Roger Federer e Rafael Nadal no circuito masculino, mas apenas enaltecer os grandiosos feitos de dois atletas que voltaram da aposentadoria no mesmo alto nível de antes.

E isso para mim deixa claro que, no esporte, não importa o quanto avance a tecnologia, ou os métodos de treinamento ou a mecânica do jogo. No fundo, o fator primordial para o sucesso sempre acabará sendo o talento. Puro e fino, como o de Kim e Dario.

Pedro Liguori acredita em talento e estrela. ‘Mas isso é assunto para outro post’ ressalta.

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